Autor: DR. NELSON NISENBAUM

São Paulo, 02/03/2022.

PSICOPUTIN

A avalanche que se amontoa sobre o cadáver político de Putin é reveladora de uma vultosa somatória de neve ácida que se acumulou sobre as montanhas que (simbolicamente) ele mesmo ajudou a construir ao longo de duas décadas de sede e abuso de poder.

As tradições de poder na Rússia são bem retratadas pela história e pela literatura. Czares, cossacos, pogroms, revolução, a formação do império soviético, a valorosa participação na destruição da Alemanha Nazista, a formação da cortina de ferro, a expansão do Pacto de Varsóvia, a corrida nuclear, a corrida espacial, a guerra de espionagem, a tentativa de estabelecer uma base nuclear em Cuba, entre outras tantas coisas que certamente escapam ao meu conhecimento.

As conquistas soviéticas são notáveis em todos os campos. Sua ciência e engenharia não têm o reconhecimento justo. Por exemplo, o foguete Próton-Soyuz que lançou o primeiro astronauta ao espaço está em operação até hoje e por mais de uma década prevaleceu como única nave a transportar humanos para o espaço, após o encerramento do programa do Ônibus espacial da NASA. Um tanque soviético T-35 foi retirado de um pântano onde estava totalmente submerso por 70 anos e após sua limpeza voltou ao funcionamento. A tecnologia “stealth” dos aviões invisíveis ao radar utilizada em naves de ataque dos EUA baseia-se em conhecimento russo sobre propagação e reflexão de ondas de rádio. A moderna técnica cirúrgica de córnea para correção de alta miopia nasceu na Rússia soviética.

Mas evidentemente tudo isso traz em si também os vícios (não exclusivos deles, mas ajustados à cultura e tempo) das “Nomenklaturas”, “Intelligentsias” e outras camaradagens muito bem conhecidas e de todas as corrupções muito bem entalhadas na história, entre outros fatos, na tragédia de Chernobyl, que por pouco não se tornou uma catástrofe continental e planetária, e que teve o custo de uma guerra de grandes proporções, algo em torno de US$ 500 bilhões em dinheiro da época, maior que o PIB de diversos países grandes, além do custo humano ainda não totalmente conhecido, mas que certamente ultrapassa a casa da centena de milhar.

Deste mar revolto descende Vladimir Putin, destilado nas melhores escolas de espionagem, informação e contrainformação, capacidade técnica, física e de persuasão, e que transita “milagrosamente” de uma posição enraizada no regime soviético para uma posição reacionária verdadeiramente neo-czarista, revelando-se um habilidoso oportunista que soube ocupar como ninguém os espaços deixados por um confuso Gorbachev, que sucedeu uma confusa transição pós Brezhnev, que por sua vez enfrentou uma tentativa de golpe por parte de forças do regime anterior e que foi sucedido por Boris Yeltsin, o excêntrico reformador que certamente não teve a capacidade de manter de pé a unidade soviética. Ali começa a carreira moderna de Putin, certamente sentindo-se o melhor dos dois mundos (soviético e pós-soviético) e provavelmente mesmo sendo o teoricamente mais capacitado para salvar a grande pátria Russa, mantendo atavicamente uma visão de mundo paranoide e persecutória.

Não há distância entre poder e dinheiro. Sem dúvida nenhuma, em uma Rússia castigada pelo desmantelamento do império que era seu e por uma crise econômica gravíssima, a única chance se sobrevivência de Putin foi aproveitada pelo seu alinhamento com as oligarquias bilionárias formadas pela pilhagem dos escombros soviéticos. O capitalismo em sua forma mais selvagem assolou a nova Rússia e Putin soube muito bem ver a cena e subir neste cavalo. Enquanto a economia Russa descia paulatinamente os degraus na escala mundial, Putin soube muito bem preservar a grande capacidade militar, ainda a segunda em ordem de grandeza mundial, o que fala muito bem sobre sua vocação bélica inata.

Mas no campo das relações internacionais e empresariais é que a coisa parece não ter ido tão bem. O volume de oposição que surpreende Putin no momento não se fabrica da noite para o dia e não se refere apenas à questão ucraniana.

O discurso de tantas páginas recitado às vésperas da invasão da Ucrânia é um longo libelo nacionalista, personalista, nostálgico, e reacionário que não confessa outra coisa senão ressentimentos, relembrando, em grande medida, os ressentimentos nacionalistas de Hitler no seu “Mein Kampf”. A história nos ensina muito sobre ressentidos poderosos, e Putin está muito acostumado ao poder, especialmente ao absoluto.

Uma amostra desta ansiedade e gula foi o mais que desastrado anúncio ao mundo do licenciamento russo da vacina Sputnik-V em agosto de 2020, quando, nas palavras dele, havia 72 pessoas testadas, exibindo pornograficamente ao mundo o seu poder de mando sobre a agência sanitária russa e a sua despudorada capacidade de humilhar a nobre e brava ciência russa, que por si mesma jamais faria tal anúncio, inaceitável sob qualquer medida diante dos números ridículos. Talvez tenha sido esta a melhor oportunidade de se conhecer a psicologia do nosso personagem, que provocou, no seio da sociedade russa uma imensa desconfiança sobre sua própria conquista que resultou em uma das taxas mais baixas de vacinação do mundo, o que veio cobrar recentemente um altíssimo preço em doença e morte por COVID-19.

Naquele momento, este autor literalmente esperneou nas redes contra o autocrata russo, o que valeu uma verdadeira surra nas redes, movidas a por um antiamericanismo raso e um culto à nostalgia soviética já não mais cabível. Fui tido, por aqueles comentários, como alinhado à Big Pharma, às grandes forças do capital, entre outros adjetivos nada recomendáveis.

Putin tem uma psicologia clara, seus comportamentos são óbvios, e sua obsessão pelo segredo e mistério só faz revelar sua verve autoritária, megalomaníaca, reacionária e ressentida, algo aparentemente já percebido por subordinados, que filmados diante de um pronunciamento do líder, exibiam tudo menos um semblante de bons amigos.

Se examinarmos as atitudes de Putin nesses 20 anos jamais encontraremos um pensador de mente aberta e humanista, mas sim, um estrategista obscuro e reservado, extremamente capaz, que conjuga ao mesmo tempo uma agressividade nos negócios externos exercidos por “proxys” privados e um dissimulado isolamento ideológico que construiu principalmente desconfiança e temor no mundo político interno e externo. Mas não nos deixemos enganar. Putin é financiador e protetor de diversos agentes e agências da extrema direita no mundo, prócere de um certo “nacionalismo cristão” que move placas tectônicas no mundo atual, com reflexos no nosso país, entre outros. No campo da imagem pessoal, Putin tenta literalmente “manter de pé o moral do homem soviético”, no sentido mais sexista e fálico possível, uma espécie de Collor russo, com uma lapidação mais rebuscada e uma matéria-prima bem diferente e sólida, forjada por seus tempos na KGB.

Muitos me criticarão e certamente me excluirão de suas redes após este texto. O que posso dizer, não exatamente em minha defesa até por que só expresso aqui o que sinto sem a menor necessidade de atacar alguém, mas simplesmente a iniciativa de compartilhar a minha visão desta realidade, é que aparentemente uma boa parte das lideranças políticas mundiais compartilha dos meus sentimentos em relação a Putin e isso tem muito pouco a ver com nossos sentimentos sobre o povo russo ou ideologia. Tudo está no campo da psicologia. E como todos sabem, pelo título de meu primeiro livro “solo” (Agudas e Crônicas: O olhar clínico), leio a realidade pelas lentes clínicas que venho polindo e tentando aprimorar há 37 anos no exercício da minha profissão. E por essas lentes, Putin pertence muito mais ao campo do diagnóstico do que ao campo político, no qual, fora de sua zona de conforto autoritária e brutal, conduziu-se voluntariamente ao desastre.